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Caco Ciocler: O Mestre da Ousadia e Versatilidade

  • textos por Marisa Abel
  • fotos por Sergio Baia
  • make por Rafael Fagundes
  • stylist por Paulo Zalenka

O ator Caco Ciocler nos presenteou nesta edição com uma entrevista deliciosa, contando um pouco sobre os bastidores de sua carreira e sua visão sobre a arte.

Sou suspeita para falar sobre os talentos de Caco Ciocler, pois acompanho seu trabalho desde o início, tanto na TV, teatro e cinema e sou fã de carteirinha deste ator que é inspiração de como mergulhar na carreira de forma profissional, trabalhando com diversas possibilidades, analisando e explorando ao máximo a história para que o espectador receba o “produto final” com excelência, tal como uma obra de arte deve ser aprecida.

O entrevistei pela primeira vez há dez anos, muito brevemente, quando eu escrevia para a Revista da Polícia Federal e o tópico da matéria foi a peça “Imperador e Galileu”, tempos depois fui na premiere do filme “Família Vende Tudo”, no qual ele faz o papel de um cantor famoso de “música brega”. Ao compararmos os trabalhos realizados pelo ator e todas as suas vertentes vemos como a versatilidade e habilidade de transformação que ele possui nos passa a credibilidade do personagem interpretado, e isso é fantástico, pois como consumidores de arte, o que queremos assistir é a realidade daquela pessoa representada na história contada.

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Na minissérie “O Quinto dos Infernos”, por exemplo, Dom Miguel, personagem de Caco, está longe de ser o galã da novela “América” e isso é a pitada especial de talento e dedicação que o profissional tem por sua carreira, por fazer cada trabalho com maestria e ousadia. São mais de duas décadas de carreira e de muito aprendizado, personagens marcantes que fazem parte da história da dramaturgia brasileira e também da nossa história como espectadores. Confira a seguir nossa entrevista e delicie-se com nosso mestre da versatilidade.

Alô Você: Trabalhar com cinema, TV e teatro permite ao ator mergulhar na história e se profundar nos temas e assuntos que serão exibidos. Nestes anos de trabalho e de dezenas de personagens já interpretados quais foram as histórias ou estórias que mais te impressionaram?

Caco Ciocler: Trabalhar com arte permite mergulhar na história, recontar estórias (a própria História), mas é também experimentar, projetar, inaugurar existências. Acho que a História que mais me impressionou foi o contato que tive com as cartas dos padres franceses Capuchinos à sua corte relatando a relação com os “selvagens” durante o processo de catequização no Brasil colonial. São documentos oficiais, que usamos para a peça “SELVAGERIA” dirigida pelo Felipe Hirsch, recheadas com uma narrativa assustadoramente mentirosa e distorcida do massacre e escravidão indígenas, revelando o patético verniz hipócrita que nos foi ensinado sobre o sangrento processo de colonização do nosso País, erguido sobre o sangue e os corpos de milhares dos chamados “naturais da terra”.

Alô Você: Quem acompanha seu trabalho sabe do seu potencial de ser versátil e de realmente transmitir a mensagem do seu personagem, cite, os que na sua opinião, foram os mais intrigantes e fora dos seus conceitos pessoais de normalidade?

Caco Ciocler: Os personagens para mim são oportunidades de enxergar o mundo sob óticas diferentes. Talvez essa versatilidade que você reconhece venha daí. Não basta mudar o visual, o figurino, a voz, é preciso re-entender e re-vivenciar o mundo sob outra perspectiva. Nesse sentido, os personagens mais intrigantes são sempre aqueles que entendem o mundo com lentes muito diversas das que o ator escolho usar. Paradoxalmente, o trabalho é de aproximação. Não adianta falar da perspectiva do outro de uma maneira distanciada. Então, mesmo nos personagens mais intrigantes e fora dos conceitos pessoais, como você diz, é preciso uma árdua busca para encontrar em si, ecos que sejam dessa “anormalidade”. Acabo por reconhecer em mim as musculaturas emocionais que (me dou conta) escolhi manter adormecidas no meu dia a dia.

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Alô Você: Viver da arte é aprender um pouco mais da história do outro, ter um novo ponto de vista, uma nova concepção da realidade. De todos os personagens que você já fez, algum deles foi essencial para mudar seu ponto de vista sobre um determinado assunto? Se sim, qual e o que ele mudou em você?

Caco Ciocler: Absolutamente todos. Se eu escolhesse um, estaria sendo muito injusto com todos os outros. Todos os personagens fazem a gente mudar nosso ponto de vista sobre determinados assuntos. Se você deixa um trabalho sem ter se transformado é sinal de que não houve trabalho.

Alô Você: Nestes anos de carreira você ganhou audiência do público, caiu no gosto popular e recebeu muitos elogios da crítica e de profissionais da área, além de conquistar muitos prêmios. Como essas conquistas e emoções percorrem dentro de você, da sua cabeça e coração?

Caco Ciocler: Sempre fui muito tenso com relação à minha sobrevivência. Principalmente pelo fato do início da minha carreira profissional, a decisão de abandonar a engenharia para viver de arte, ter coincidido (ou ter sido motivada) com a notícia de que seria pai. Então, todo o início foi mesmo muito tenso, uma questão de sobrevivência. Não ser reconhecido significava a descontinuidade da construção de uma carreira que pudesse sustentar minha família. Então, hoje, isso que você chama de conquistas, me percorrem como uma sensação de alívio, de orgulho, mas principalmente de liberdade (agora que meu filho é um adulto) para cada vez mais poder fazer escolhas profissionais que me sejam absolutamente vitais.

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Alô Você: Ao longo dos anos sua carreira de ator lhe permitiu desempenhar papéis históricos e excelentes, tanto no teatro quanto no cinema e na TV. Se pudesse fazer agora um trailer da sua própria história, misturando essas três áreas da dramaturgia, quais imagens gostaria de passar para os fãs?

Caco Ciocler: Escolheria personagens bastante diferentes entre si. Um trailer rápido, que não se detivesse em cenas muito longas, mas ressaltasse a versatilidade.

Alô Você: Muitas pessoas vivem o agora, sem pensar muito no amanhã, outras vivem no futuro, outras são meio a meio, vivem o agora planejando o futuro, quais destes estilos tem mais a ver com você?

Caco Ciocler: Nós, artistas, fabricamos futuros. Eu divido meu tempo entre criar projetos, inventar idéias malucas, e correr atrás para concretizá-las.

Alô Você: Você já desenhou na sua imaginação o futuro que gostaria de desfrutar?

Caco Ciocler: Vivo fazendo isso. O problema é que ele vai mudando, à medida que vou concretizando os desenhos.

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Alô Você: Das dezenas de personagens que você já desempenhou tem algum deles que é seu favorito por causa da história, do roteiro, da mensagem transmitida?

Caco Ciocler: Tenho muito carinho pelo Dom Miguel, da minissérie “O QUINTO DOS INFERNOS”. Sem dúvida a experiência mais transgressora que já tive na televisão. Um personagem complexo, escrito genialmente pelo Carlos Lombardi e conduzido com uma permissividade que chegava a ser comovente pelo Wolf Maya. A gente literalmente enlouqueceu, no bom sentido da palavra, levando (ou elevando) o Dom Miguel a lugares e registros de interpretação até então inimagináveis para mim na televisão.

Alô Você: Anos atrás estive na plateia de algumas de suas peças, mas “Casting” e “Imperador e Galileu” me chamaram a atenção pela densidade da história. Você gosta mais da narrativa leve e descontraída ou das mais densas e sofisticadas?

Caco Ciocler: Particularmente me sinto mais à vontade nas densas. Isso não quer dizer chatas. Narrativas densas e humor não precisam ser excludentes. Mas é que as leves me soam como produtos culturais, entretenimento. Meu barato é na arte, num lugar de transformação, de reinvenção de mundo, e não na distração dele.

Alô Você: Como estamos nos Estados Unidos, não posso deixar de te perguntar sobre a novela “América”. Conte um pouco como é sua visão sobre a vida do brasileiro que decide desbravar as fronteiras e ingressar em uma nova jornada?

Caco Ciocler: Nada contra desbravar fronteiras e ingressar em novas jornadas. A vida tem que ser mesmo movimento. Mas AMÉRICA tratava de uma realidade bastante cruel, onde “desbravar fronteiras” nascia do desespero, onde pessoas colocavam a vida em risco em nome de um sonho financeiro. Não sei se colocaria a minha. Os Estados Unidos sempre venderam muito bem essa idéia para o mundo de que qualquer um pode enriquecer na América. O novo deus é o mercado, a grana. Se estão desbravando fronteiras em nome da alegria legítima, eu apoio. Se estão acreditando no sonho americano, desconfio.

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Alô Você: Recentemente você dirigiu o road-movie chamado “Partida”, no Uruguai. Pode contar um pouco sobre ele?

Caco Ciocler: O filme conta a história de uma atriz que decide se candidatar à presidência do Brasil depois da vitória de Jair Bolsonaro, pelo partido feminino PARTIDA! Junta uma trupe de 12 improváveis companheiros de viagem num ônibus fabricado em 1977 e parte junto deles para o Uruguai, na tentativa utópica de conseguir passar o reveillon ao lado de sua maior referencia politico-afetiva, o ex presidente Pepe Mujica. O filme está lindo!

Alô Você: Outra novidade é seu debut como escritor. Conte como foi a experiência de escrever Zeide, A Travessia de um Judeu entre Nações e Gerações?

Caco Ciocler: Foi maravilhoso. Um experiência pessoal fortíssima, porque construía diariamente a narrativa da minha própria origem, ainda que recheada de invenções ficcionais, ao mesmo tempo que via surgir diante de meus olhos um estilo de escrita que eu mesmo desconhecia. É um livro muito afetivo. Nunca li depois de publicado.

Alô Você: Falando um pouco da sua vida pessoal, que tipo de imagem ou de atitude te arranca sorrisos?

Caco Ciocler: Meu filho, minha neta, abraços, cuidado, inteligência, humor, piadas sem graça, alguns animais, uma ilha de edição, um bom filme, uma boa peça, uma boa leitura, poesia, dirigir, árvores, vento, flores.

Alô Você: Na sua individualidade, qual é a atividade que te dá mais prazer?

Caco Ciocler: Trabalhar.

Alô Você: Qual o maior desafio que enfrentou na vida particular?

Caco Ciocler: Manter a calma.

Alô Você: O que faz seu coração bater acelerado?

Caco Ciocler: Estreias, a primeira vez que vou mostrar algo meu às pessoas e saudade.

Alô Você: O que podemos esperar de Caco Ciocler para 2019?

Caco Ciocler: Bom, estamos em Março e já dirigi um filme, um seriado e uma peça. Acho que podemos esperar um Caco diretor.

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